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A MEMÓRIA APAGA, MAS A EMOÇÃO PERMANECE

  • Foto do escritor: Fabio Gonzales
    Fabio Gonzales
  • 17 de ago.
  • 2 min de leitura

Na rotina do consultório e das visitas domiciliares, vejo com frequência famílias exaustas tentando combater a agitação e a agressividade em idosos com esquecimento ou demência (mesmo em fases iniciais) com o aumento de doses ou a troca constante de remédios. No entanto, na maioria dos casos, a solução não está apenas na farmácia, mas na forma como o ambiente e a comunicação ao redor do paciente se organizam.


Caso 1: A dor de não lembrar, mas ainda sentir

Atendi recentemente uma senhora de 89 anos com demência moderada. Ela havia passado por uma internação recente por infecção, teve os remédios trocados no hospital e trazia exames alterados, como anemia e creatinina elevada. A filha me trouxe uma lista longa de queixas e preocupações: dizia que a mãe estava extremamente agitada, gritava e afirmava que não lhe deram comida, mesmo tendo acabado de se alimentar.

Enquanto a filha expunha minuciosamente tudo o que a mãe fazia de "errado", notei algo muito comum nas famílias que enfrentam essa fase: a idosa começou a chorar e se emocionar profundamente na minha frente.

Ela não tinha mais memória de curto prazo para lembrar o que comeu ou articular uma defesa racional, mas sentiu o peso da acusação. O cérebro com demência perde a capacidade de reter fatos, mas a sensibilidade emocional continua intacta. Quando corrigido ou criticado, o paciente não entende o argumento, mas se sente ameaçado e reage por instinto.


Caso 2: A linguagem que o cérebro desgastado não entende mais

Em outro atendimento domiciliar, deparei-me com uma paciente que apresentava relatos de picos de agressividade, chegando a dar um tapa em uma funcionária da casa. Investigando a rotina, percebi o gatilho: a funcionária costumava falar com ela usando de ironia e comentários abstratos. Ao ouvir um "Nossa, como você está magra!", a paciente não interpretava a brincadeira; ela escutava uma ameaça desestruturante.

O cérebro na demência perde a capacidade de decodificar ironias, metáforas ou duplos sentidos. Quando orientamos a equipe a trocar a ironia por frases diretas, afetuosas e acolhedoras — como "Fiz um bolo de banana que você gosta, meu amor" —, a agressividade simplesmente desapareceu e remédios foram reduzidos.


Onde ajustar antes de aumentar a dose?

  • Trate os exames e a clínica, mas não ignore o comportamento: Infecções, anemia ou alterações renais causam confusão mental, mas a forma como a família lida com a rotina determina o nível de agitação do dia a dia.

  • Pare de corrigir o fato, acolha a emoção: Discutir se a pessoa já comeu ou não só gera ansiedade. Valide o sentimento e ofereça conforto.

  • Elimine a ironia e a complexidade: Fale de forma simples, direta e em tom suave.

  • Preserve a dignidade ao falar do paciente: Evite expor as falhas dele na sua frente. Ele pode não guardar as palavras, mas guardará o sentimento de rejeição.

  • Entenda a reatividade como instinto: O paciente com demência frequentemente reage com agressividade ou choro não por teimosia, mas porque se sente assustado e sem ferramentas para se defender.


A modificação comportamental e a postura do ambiente ao redor do idoso são, na maioria das vezes, muito mais poderosas do que qualquer ajuste isolado na receita médica.



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